Uma nova decisão anunciada nos Estados Unidos reacende a atenção sobre a miíase causada pela Cochliomyia hominivorax, conhecida no Brasil como bicheira. Entenda o que aconteceu — e por que uma doença antiga ainda merece atenção.
Ciência & Atualidade | ClinVet Brasil
Para muitos brasileiros, bicheira parece um problema antigo e bem conhecido. Mas, em 2026, a miíase causada pela mosca Cochliomyia hominivorax voltou a ocupar espaço importante nas discussões internacionais de saúde animal.
Em 3 de setembro de 2026, a Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, anunciou uma autorização emergencial para o uso de nitenpyram na prevenção e no tratamento da infestação por New World screwworm em determinados cães, filhotes, gatos e gatinhos.
A novidade é relevante porque autorizações anteriores nos Estados Unidos já contemplavam tratamentos, mas, segundo a própria FDA, esta foi a primeira vez que uma autorização para cães e gatos passou a incluir também a prevenção da infestação.
Mas o ponto mais importante para os tutores brasileiros não é o medicamento.
É entender por que uma parasitose conhecida há tanto tempo continua mobilizando autoridades e pesquisadores veterinários em 2026.
O que é a bicheira?
“Bicheira” é o nome popular dado a determinadas formas de miíase, uma infestação provocada por larvas de moscas.
Uma das espécies de maior importância veterinária nas Américas é a Cochliomyia hominivorax, conhecida internacionalmente como New World screwworm.
A mosca adulta pode depositar seus ovos em feridas e mucosas de animais de sangue quente. Depois da eclosão, as larvas penetram no tecido.
E aqui está uma característica que torna essa espécie particularmente preocupante:
as larvas se alimentam de tecido vivo.
À medida que se desenvolvem, podem aprofundar e ampliar a lesão. Sem intervenção adequada, a infestação pode provocar danos importantes e, em casos graves, representar risco à vida do animal.
Cães e gatos podem ser acometidos, assim como animais de produção, animais silvestres e, mais raramente, seres humanos.
Tudo pode começar com uma lesão
Um dos equívocos é imaginar que a bicheira necessariamente começa com uma ferida grande e evidente.
Não precisa ser assim.
Lesões que comprometem a integridade da pele podem criar condições para a instalação da miíase.
E existe um dado brasileiro interessante.
Estudos realizados com cães atendidos em clínicas veterinárias do Rio de Janeiro identificaram os ouvidos entre as regiões mais acometidas, sendo a otite uma importante causa de lesões associadas aos casos estudados. Feridas diversas também apareceram entre os fatores predisponentes.
Isso ajuda a entender por que a prevenção não significa apenas “proteger o animal contra moscas”.
Significa também identificar e tratar adequadamente feridas, inflamações e outros problemas capazes de produzir uma porta de entrada.
Quais sinais merecem atenção?
Uma lesão que muda rapidamente merece ser observada.
Dependendo da localização e da extensão da infestação, podem ocorrer alterações como:
- presença de larvas na lesão;
- ferida que aumenta ou se aprofunda;
- secreção;
- odor desagradável;
- desconforto ou dor;
- lambedura ou atenção excessiva à região;
- alteração de comportamento.
A FDA orienta que animais com suspeita de infestação — incluindo presença de larvas ou odor desagradável em feridas ou aberturas corporais — recebam avaliação veterinária.
Quanto antes o problema é identificado, mais cedo pode ser estabelecida a conduta adequada.
O que aconteceu em 2026?
É aqui que uma doença conhecida há décadas encontra a medicina veterinária atual.
Ao longo de 2026, a FDA passou a emitir uma série de Emergency Use Authorizations (EUAs) e aprovações condicionais relacionadas ao controle da New World screwworm.
Em fevereiro, por exemplo, foram emitidas autorizações emergenciais envolvendo produtos para tratamento em cães e gatos. Em junho, o nitenpyram genérico recebeu autorização emergencial para tratamento.
E então veio a novidade de 3 de setembro.
A FDA autorizou Capstar (nitenpyram) e revisou a autorização do nitenpyram genérico para permitir seu uso, dentro das condições estabelecidas pela agência, tanto para prevenção quanto para tratamento da New World screwworm em cães, filhotes, gatos e gatinhos que atendam aos critérios definidos pela autorização.
Até 3 de setembro de 2026, a FDA contabilizava 15 autorizações emergenciais e três aprovações condicionais de medicamentos animais relacionados à New World screwworm.
É uma mobilização significativa para um parasita que está longe de ser uma descoberta recente.
Então existe um novo tratamento para bicheira no Brasil?
Essa conclusão não deve ser feita a partir da notícia.
A decisão anunciada em 3 de setembro pertence ao contexto regulatório dos Estados Unidos e foi tomada por meio de uma autorização emergencial da FDA.
Isso não transforma automaticamente o mesmo medicamento em uma indicação preventiva ou terapêutica para animais no Brasil.
Também não significa que o tutor deva comprar nitenpyram ou qualquer outro antiparasitário mencionado em notícias internacionais para tentar tratar uma suspeita de miíase.
Informação científica não é prescrição.
Medicamentos, doses e protocolos devem ser definidos pelo médico-veterinário de acordo com o animal, a condição clínica e as normas aplicáveis no Brasil.
Esse cuidado é particularmente importante porque uma infestação não se resume necessariamente às larvas visíveis na superfície.
A extensão e as condições da lesão também precisam ser avaliadas.
Encontrou larvas em uma ferida. O que fazer?
O mais adequado é procurar atendimento veterinário.
A tentativa de resolver o problema apenas retirando algumas larvas visíveis pode não permitir avaliar corretamente a extensão da lesão.
Também não é recomendável aplicar produtos, substâncias caseiras ou medicamentos por conta própria.
O médico-veterinário poderá avaliar a profundidade e extensão da lesão, o estado geral do animal e definir a abordagem necessária para aquele caso.
Prevenção começa antes de aparecerem as larvas
Talvez esta seja a informação mais útil de toda a discussão.
Prevenir miíase não significa apenas procurar larvas.
Significa não ignorar aquilo que pode permitir que a infestação se estabeleça.
Feridas precisam ser observadas e tratadas adequadamente. Problemas de pele e ouvido merecem atenção. A higiene do animal e do ambiente também faz parte da prevenção.
Estudos brasileiros encontraram maior ocorrência em períodos mais quentes e destacaram justamente o controle de feridas, otites e condições predisponentes como componentes importantes da prevenção.
Por isso, vale incorporar um hábito simples:
observe o seu animal.
Ao fazer carinho, dar banho ou escovar, aproveite para verificar pele, orelhas e regiões que normalmente ficam escondidas pela pelagem.
Uma pequena alteração percebida cedo pode ser muito mais simples de investigar do que uma lesão descoberta apenas quando já está avançada.
Por que uma doença antiga voltou ao radar?
Essa talvez seja a parte mais interessante da notícia.
A Cochliomyia hominivorax não surgiu em 2026.
A bicheira também não é uma nova doença.
O que mudou foi o nível de mobilização em torno dela.
Quando autoridades sanitárias precisam ampliar estratégias de prevenção e tratamento contra um parasita conhecido há décadas, temos um lembrete importante:
Doença conhecida não significa doença que deixou de importar.
A medicina veterinária avança com novas pesquisas, novos medicamentos e novas tecnologias — mas também precisa continuar vigilante diante de problemas que já conhecemos.
E essa combinação entre experiência acumulada e ciência atual continua sendo uma das ferramentas mais importantes para proteger a saúde dos animais.
Ciência & Atualidade | ClinVet Brasil
Acompanhamos pesquisas, descobertas e acontecimentos da medicina veterinária para explicar o que realmente importa para a saúde do seu animal.
Clínica Veterinária Dr. Antonio Brasil
Biguaçu – SC • Desde 1981
Referências
U.S. Food and Drug Administration (FDA). FDA Issues Emergency Use Authorization for Drugs to Prevent and Treat New World Screwworm in Dogs and Cats. 3 set. 2026.
Comunicado oficial da FDA
U.S. Food and Drug Administration (FDA). Animal Drugs for New World Screwworm. Atualizado em 3 set. 2026.
Página técnica da FDA sobre New World screwworm
Cramer-Ribeiro BC et al. Inquérito sobre os casos de miíase por Cochliomyia hominivorax em cães das zonas norte e oeste do município do Rio de Janeiro no ano 2000. Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science. 2003;40(1):13–20.
Estudo publicado pela Universidade de São Paulo
Cramer-Ribeiro BC et al. Inquérito sobre os casos de miíase por Cochliomyia hominivorax em cães da zona sul do município do Rio de Janeiro no ano 2000. Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science. 2002;39(4):171–175.
Estudo brasileiro sobre miíase canina






