10 de julho de 2026

Vacinas para Cães e Gatos: o Guia Completo para Proteger a Saúde do seu Pet (Parte 1)

A vacinação continua sendo a forma mais eficaz de prevenir doenças graves, proteger a saúde pública e aumentar a expectativa de vida de cães e gatos.

Durante as últimas décadas, a medicina veterinária conseguiu reduzir drasticamente a incidência de doenças que antes eram responsáveis por milhares de mortes todos os anos. Cinomose, parvovirose, hepatite infecciosa, panleucopenia felina e raiva deixaram de ser comuns justamente porque milhões de animais passaram a ser vacinados regularmente.

Ao mesmo tempo, a ciência também evoluiu.

Hoje já sabemos que nem todas as vacinas precisam ser repetidas todos os anos, enquanto outras realmente exigem reforços anuais para manter a proteção adequada. Também aprendemos que cada animal deve ser avaliado individualmente, considerando idade, estilo de vida, ambiente, contato com outros animais e riscos epidemiológicos da região onde vive. As diretrizes internacionais da WSAVA (World Small Animal Veterinary Association), atualizadas em 2024, reforçam essa abordagem baseada em evidências.

Este guia reúne as principais recomendações atuais para ajudar tutores a compreenderem quais vacinas existem, quais são consideradas essenciais, quais dependem do estilo de vida do animal e como funciona o calendário de vacinação.

Como funcionam as vacinas?

Uma vacina não impede apenas que o animal fique doente.

Ela ensina o sistema imunológico a reconhecer vírus e bactérias antes que eles provoquem uma infecção grave.

Após a aplicação, células de defesa produzem anticorpos e desenvolvem uma memória imunológica. Quando o pet entra em contato com aquele agente infeccioso no futuro, seu organismo consegue responder rapidamente, evitando a doença ou reduzindo significativamente sua gravidade.

Em outras palavras, a vacina prepara o organismo para vencer uma batalha antes mesmo que ela aconteça.

Por que filhotes precisam de várias doses?

Essa é uma das dúvidas mais comuns.

Quando nasce, o filhote recebe anticorpos da mãe através do colostro. Esses anticorpos oferecem proteção temporária, mas também podem neutralizar a vacina, impedindo que ela produza imunidade.

O problema é que não existe uma idade exata em que essa proteção desaparece.

Em alguns filhotes isso ocorre com oito semanas.

Em outros, somente após as dezesseis semanas.

Por esse motivo, os protocolos utilizam várias doses consecutivas, aumentando a probabilidade de que pelo menos uma delas seja aplicada no momento ideal para estimular a imunidade definitiva. Essa estratégia é recomendada pelas principais entidades internacionais de medicina veterinária.

Vacinas essenciais (Core) e vacinas complementares (Non-Core)

A medicina veterinária moderna divide as vacinas em dois grupos.

Vacinas essenciais (Core)

São indicadas para praticamente todos os cães, independentemente da raça, porte ou estilo de vida.

Protegem contra doenças graves, altamente contagiosas ou com impacto na saúde pública.

Vacinas complementares (Non-Core)

São recomendadas apenas quando existe risco real de exposição.

A decisão depende de fatores como:

  • contato com outros cães;
  • passeios frequentes;
  • hospedagem em hotéis para pets;
  • participação em exposições;
  • viagens;
  • presença da doença na região.

Esse conceito substituiu a antiga ideia de que todos os cães deveriam receber exatamente as mesmas vacinas todos os anos.

As principais vacinas para cães

No Brasil, os tutores costumam ouvir falar em V8, V10 e antirrábica.

Na prática, essas vacinas são combinações de diferentes componentes imunizantes.

Vacina V8

Também chamada de vacina óctupla.

Ela protege contra oito componentes relacionados às seguintes doenças:

Doença Gravidade
Cinomose Muito alta
Parvovirose Muito alta
Hepatite Infecciosa Canina Alta
Adenovírus tipo 2 Alta
Parainfluenza Moderada
Leptospirose (alguns sorovares) Alta

A V8 é considerada uma das vacinas mais importantes da medicina veterinária.

Ela protege justamente contra as doenças que historicamente causaram maior mortalidade em cães.

O que é a cinomose?

A cinomose é causada por um vírus altamente contagioso.

Pode provocar:

  • febre;
  • secreção nasal;
  • pneumonia;
  • diarreia;
  • convulsões;
  • sequelas neurológicas permanentes.

Mesmo com tratamento intensivo, muitos cães não sobrevivem.

Nos sobreviventes, podem permanecer tremores musculares, alterações motoras e crises convulsivas durante toda a vida.

O que é a parvovirose?

A parvovirose atinge principalmente filhotes.

O vírus destrói células intestinais e provoca:

  • vômitos intensos;
  • diarreia hemorrágica;
  • desidratação grave;
  • infecções secundárias;
  • sepse.

Sem tratamento imediato, a mortalidade pode ser extremamente elevada.

O que é a hepatite infecciosa canina?

É causada pelo Adenovírus Canino tipo 1.

Afeta principalmente:

  • fígado;
  • rins;
  • olhos;
  • vasos sanguíneos.

Pode causar insuficiência hepática aguda e levar o animal à morte.

Parainfluenza Canina

É um dos agentes envolvidos na chamada Tosse dos Canis.

Embora isoladamente costume apresentar menor gravidade, facilita infecções respiratórias secundárias.

Leptospirose

A leptospirose merece atenção especial.

Além de afetar cães, ela também pode infectar seres humanos.

É uma zoonose.

A transmissão ocorre principalmente pelo contato com água, solo ou superfícies contaminadas pela urina de animais infectados, especialmente roedores.

Os sinais clínicos incluem:

  • febre;
  • insuficiência renal;
  • insuficiência hepática;
  • hemorragias;
  • icterícia.

As diretrizes internacionais de 2024 passaram a considerar a vacinação contra leptospirose como vacina essencial (core) em regiões onde a doença é endêmica e há vacinas apropriadas disponíveis, devido ao seu impacto tanto na saúde animal quanto na saúde pública.

Vacina V10

A V10 oferece a mesma proteção da V8.

A principal diferença está na leptospirose.

Ela amplia a cobertura para um número maior de sorovares da bactéria Leptospira.

Na prática, oferece proteção mais abrangente contra diferentes variantes encontradas na natureza.

Por isso, muitos médicos-veterinários preferem a V10 em regiões onde a leptospirose é mais frequente.

V8 ou V10: qual é melhor?

Não existe uma resposta universal.

A escolha depende principalmente:

  • da região onde o animal vive;
  • da incidência local de leptospirose;
  • da disponibilidade das vacinas;
  • da avaliação clínica do médico-veterinário.

Em áreas urbanas com maior circulação de roedores ou histórico de leptospirose, a V10 costuma ser a opção mais indicada.

A vacina contra a raiva ainda é obrigatória?

Sim.

A raiva continua sendo uma das doenças infecciosas mais letais conhecidas.

Depois do aparecimento dos sintomas, a mortalidade é praticamente de 100%.

Além de atingir cães e gatos, também representa um risco para os seres humanos.

No Brasil, a vacinação antirrábica faz parte das estratégias nacionais de controle da doença, e as normas locais devem ser respeitadas. A WSAVA também considera a vacina antirrábica essencial em países e regiões onde a doença é endêmica ou exigida por legislação.


Continua na Parte 2…

Na próxima parte veremos:

  • Calendário completo de vacinação para cães (filhotes, adultos e idosos);
  • Vacinas anuais, trienais e quando o protocolo pode mudar;
  • Vacina contra gripe canina;
  • Tosse dos Canis (Bordetella);
  • Vacina contra giárdia;
  • Vacinas para gatos (V3, V4, V5 e FeLV);
  • O que fazer quando uma vacina atrasa;
  • Mitos e verdades;
  • Efeitos adversos;
  • FAQ completo;
  • Fontes científicas e referências para consulta.