Existem evidências relevantes de comportamento semelhante ao ciúme — mas compreender exatamente o que o cão sente continua sendo uma das fronteiras fascinantes da ciência do comportamento animal.
O que a ciência descobriu sobre uma das emoções mais intrigantes da relação entre cães e humanos
Você se aproxima de outro cachorro.
Faz carinho. Conversa. Dá atenção.
Seu cão, que até então estava tranquilamente a alguns metros de distância, levanta, aproxima-se, encosta em você e, alguns segundos depois, encontra uma maneira bastante eficiente de colocar o próprio corpo exatamente entre vocês dois.
Para muitos tutores, o diagnóstico parece óbvio:
“Está com ciúmes.”
Mas essa cena aparentemente simples levou pesquisadores a uma pergunta muito mais complexa:
um cachorro realmente pode sentir ciúmes ou estamos apenas interpretando seu comportamento com emoções humanas?
A resposta científica é fascinante justamente porque ainda não cabe perfeitamente em um “sim” ou “não”.
Experimentos realizados nas últimas décadas encontraram evidências de que cães apresentam comportamentos compatíveis com uma forma básica de ciúme quando percebem uma ameaça a uma relação social importante. Ao mesmo tempo, outros trabalhos mostraram como é difícil demonstrar que aquilo que observamos corresponde à experiência emocional que chamamos de ciúme.
A ciência, portanto, está fazendo algo muito mais interessante do que simplesmente decidir se cães são ou não “ciumentos”.
Ela está tentando descobrir o que acontece na mente de um cachorro quando alguém parece disputar uma pessoa importante para ele.
Comportamento nós conseguimos observar. Emoção precisamos inferir com muito mais cuidado.
Primeiro: o que é ciúme?
Nos seres humanos, ciúme é uma emoção social complexa.
Normalmente envolve três elementos:
um indivíduo, uma relação valorizada e um possível rival.
Isso diferencia o ciúme de outras respostas emocionais.
Um cachorro pode querer atenção porque aprendeu que aproximar-se do tutor resulta em carinho. Pode disputar um sofá, um brinquedo ou alimento. Pode ficar excitado com a chegada de outro animal. Pode apresentar ansiedade diante de uma mudança na rotina.
Nenhuma dessas situações, isoladamente, demonstra ciúme.
Para que a hipótese se torne mais interessante cientificamente, é preciso perguntar se o comportamento muda especificamente quando um possível rival ameaça uma relação social valorizada.
Essa distinção está no centro dos experimentos sobre ciúme canino.
2014: o experimento que colocou o ciúme dos cães no laboratório
Um dos estudos mais conhecidos sobre o tema foi conduzido pelas pesquisadoras Christine Harris e Caroline Prouvost, da University of California San Diego.
Publicado na PLOS ONE em 2014, o experimento adaptou um método anteriormente utilizado para estudar ciúme em bebês humanos.
Participaram 36 cães.
Em suas próprias casas, os animais observavam seus tutores interagindo com três estímulos diferentes.
Em uma condição, o tutor demonstrava carinho por um cachorro de brinquedo realista que latia e movimentava a cauda.
Em outra, dirigia atenção a um objeto não social.
E havia ainda uma condição envolvendo a leitura de um livro infantil.
A pergunta era simples:
o comportamento do cão mudaria quando a atenção afetiva do tutor fosse direcionada para algo que aparentasse ser outro cachorro?
Mudou.
Quando apareceu um possível rival, os cães reagiram de maneira diferente
Na condição envolvendo o cachorro artificial, os animais apresentaram significativamente mais comportamentos como:
- tentar entrar entre o tutor e o objeto;
- empurrar ou tocar o tutor;
- tocar ou empurrar o possível rival;
- observar intensamente a interação;
- tentar recuperar a atenção;
- em alguns casos, abocanhar o cachorro artificial.
Um quarto dos cães chegou a abocanhar o objeto durante a condição experimental envolvendo o suposto rival, enquanto isso ocorreu com apenas um cão nas outras condições.
Mas um detalhe chamou particularmente a atenção.
86% fizeram algo muito “canino”
Dos cães que se aproximaram do cachorro artificial depois da interação, 86% cheiraram sua região anal.
Para nós, pode parecer apenas uma curiosidade.
Para pesquisadores de comportamento animal, é uma informação importante.
Investigar olfativamente essa região é parte do repertório social dos cães. O comportamento sugeriu que muitos animais poderiam estar tratando aquele objeto, pelo menos inicialmente, como algo semelhante a outro cão.
As pesquisadoras concluíram que os resultados eram compatíveis com a hipótese de uma forma “primordial” de ciúme.
Mas a história científica não terminou ali.
2018: outro experimento colocou essa interpretação em dúvida
Quatro anos depois, pesquisadores das universidades de Milão e Parma decidiram investigar o fenômeno novamente.
Foram realizados dois estudos, cada um com 36 cães adultos — 72 animais no total.
Os pesquisadores utilizaram diferentes cachorros artificiais e também compararam a reação dos animais quando quem interagia com os objetos era o tutor ou uma pessoa desconhecida.
O resultado foi muito menos convincente.
Os cães demonstraram interesse pelos cachorros artificiais, mas os pesquisadores não encontraram evidências suficientemente claras de que os animais realmente os estivessem percebendo como rivais sociais.
Também não apareceu de maneira consistente o conjunto de comportamentos que seria esperado caso os cães estivessem tentando recuperar a atenção de uma figura social importante.
A conclusão foi cautelosa:
os resultados não forneciam prova convincente de que aquelas respostas fossem provocadas por ciúme.
Os autores não descartaram a possibilidade de cães apresentarem uma forma rudimentar dessa emoção.
Questionaram principalmente o método.
E fizeram uma observação importante: talvez fosse necessário estudar situações mais naturais e rivais sociais mais convincentes.
Isso significa que o estudo anterior estava errado?
Não necessariamente.
Essa é uma excelente oportunidade para entender como a ciência funciona.
Um experimento produz uma evidência.
Outro grupo tenta reproduzir ou aperfeiçoar o experimento.
Novas limitações aparecem.
Uma hipótese é reformulada.
Outros experimentos são criados.
Ciência sólida não é aquela em que todos os estudos concordam imediatamente. É aquela em que hipóteses sobrevivem — ou não — a testes cada vez melhores.
E foi exatamente isso que aconteceu com o ciúme canino.
2021: o cachorro consegue reagir a algo que nem está vendo?
Pesquisadores da University of Auckland, na Nova Zelândia, decidiram abordar o problema de outra maneira.
O estudo, publicado em Psychological Science, trabalhou com 18 cães.
Primeiro, o animal observava seu tutor próximo a um possível rival social — novamente representado por um cachorro artificial.
Depois acontecia algo engenhoso:
uma barreira bloqueava a visão do cachorro.
O animal não conseguia mais observar diretamente a interação.
Mesmo assim, os pesquisadores criavam uma situação em que ele tinha razões para acreditar que seu tutor estava fazendo carinho no rival escondido.
O resultado revelou três características consideradas importantes.
O comportamento semelhante ao ciúme aparecia quando:
- o tutor interagia com um possível rival social;
- havia uma interação entre tutor e rival — a simples presença do rival não era suficiente;
- a interação acontecia mesmo fora do campo visual do cachorro.
Esse terceiro ponto é especialmente interessante.
O cachorro não precisava estar vendo
Se a reação dependesse exclusivamente de estímulos visuais imediatos, ela deveria desaparecer quando a barreira impedisse o cão de observar a interação.
Mas não foi isso que aconteceu.
Os pesquisadores interpretaram os resultados como a primeira evidência de que cães poderiam formar uma representação mental de uma interação social capaz de provocar comportamento semelhante ao ciúme.
Em linguagem simples:
o cachorro aparentemente conseguia reagir não apenas ao que estava diante dos olhos, mas também ao que tinha razões para acreditar que estava acontecendo.
Isso não significa que estivesse pensando:
“Meu tutor está gostando mais daquele cachorro do que de mim.”
A ciência não consegue afirmar isso.
Mas sugere um processamento social mais sofisticado do que uma simples reação automática ao estímulo visual.
E a pesquisa continua evoluindo
Um estudo publicado em 2025 acrescentou uma peça curiosa à discussão.
Pesquisadores analisaram como cães reagiam quando seus tutores interagiam com um cachorro rival, um robô e uma situação de controle envolvendo leitura.
Os cães apresentaram mais comportamentos direcionados ao tutor, interrupções da interação, vocalizações e tentativas de abocanhar quando o tutor atendia ao cachorro rival do que durante a condição de leitura.
O robô produziu respostas intermediárias.
Isso reforça uma questão importante:
a maneira como o cão interpreta o possível rival parece importar.
Não basta simplesmente colocar um objeto perto do tutor.
O contexto social faz diferença.
O que três gerações de experimentos nos ensinaram?
| Estudo | Cães avaliados | Principal pergunta | Resultado |
|---|---|---|---|
| Harris & Prouvost, 2014 | 36 | Cães reagem diferentemente quando o tutor demonstra afeto por um possível rival? | Encontrou comportamentos compatíveis com ciúme |
| Prato-Previde et al., 2018 | 72 | Cachorros artificiais realmente funcionam como rivais sociais? | Evidência insuficiente para concluir ciúme |
| Bastos et al., 2021 | 18 | A reação permanece quando a interação fica fora da visão? | Encontrou três assinaturas comportamentais compatíveis com ciúme |
| Estudo com agentes sociais, 2025 | — | A natureza do possível rival altera a resposta? | Respostas mais fortes diante do rival canino |
O conjunto das evidências é mais interessante do que qualquer estudo isoladamente.
Não temos uma demonstração de que cães experimentem toda a complexidade psicológica do ciúme humano.
Mas também já é difícil tratar esses comportamentos simplesmente como uma reação indiscriminada à perda de atenção.
Por que o ciúme poderia existir em outras espécies?
Existe uma hipótese evolutiva interessante.
Para animais sociais, relações podem representar recursos extremamente valiosos.
Um parceiro social pode significar:
- proteção;
- cooperação;
- acesso a recursos;
- estabilidade;
- segurança.
Se um terceiro indivíduo ameaça uma relação importante, comportamentos capazes de interromper essa interação e recuperar proximidade poderiam oferecer vantagem.
Por essa perspectiva, o ciúme não precisaria ter surgido originalmente como a sofisticada emoção romântica que conhecemos nos seres humanos.
Poderia existir primeiro como um mecanismo muito mais básico:
proteger relações sociais valiosas contra possíveis competidores.
Essa hipótese funcional aparece justamente na literatura que investiga o fenômeno em cães.
Então por que meu cachorro entra no meio quando faço carinho em outro?
Essa talvez seja a situação que mais interessa aos tutores.
Você acaricia outro cachorro.
O seu observa.
Aproxima-se.
Encosta.
Empurra sua mão.
E finalmente posiciona o corpo entre vocês.
É tentador concluir imediatamente:
ciúme.
E, de fato, interferir fisicamente entre o tutor e um possível rival foi um dos comportamentos observados experimentalmente.
Mas existe uma diferença fundamental entre dizer:
“Meu cachorro apresentou um comportamento compatível com ciúme.”
e afirmar:
“Eu sei exatamente o que meu cachorro está sentindo.”
A primeira frase descreve uma hipótese baseada em comportamento.
A segunda atribui ao animal uma experiência interna que não podemos observar diretamente.
Nem tudo que parece ciúme é ciúme
Esse talvez seja o ponto mais importante para levar para casa.
O mesmo comportamento externo pode ter motivações diferentes.
Busca por atenção
O cão pode simplesmente ter aprendido:
“Quando entro no meio, recebo atenção.”
Se funciona repetidamente, o comportamento pode ser reforçado.
Competição por recursos
Para alguns cães, o tutor pode funcionar como um recurso social altamente valorizado.
A disputa pode envolver acesso, proximidade ou interação.
Excitação
A presença de outro animal pode aumentar a ativação do cão, fazendo com que ele se aproxime e interfira.
Ansiedade
Mudanças na disponibilidade do tutor podem provocar insegurança ou desconforto.
Comportamento aprendido
Se empurrar o outro cachorro produz carinho, conversa ou contato físico, existe uma recompensa.
O comportamento pode tornar-se frequente independentemente da emoção que originalmente o desencadeou.
Por isso, interpretar comportamento animal exige contexto.
E quando o “ciúme” vira briga?
Aqui termina a curiosidade e começa uma questão importante de segurança.
Rosnar, bloquear constantemente o acesso ao tutor, perseguir outro animal, mostrar rigidez corporal, disputar espaço ou iniciar agressões não devem ser romantizados como:
“Ele me ama tanto que sente ciúmes.”
Pode existir conflito social, proteção de recurso, medo, ansiedade ou outros fatores comportamentais envolvidos.
Punir o rosnado também não resolve a causa.
O rosnado é comunicação.
Quando há escalada, episódios repetidos ou risco de mordida, o comportamento merece avaliação profissional.
Chegou um novo pet. O primeiro vai sentir ciúmes?
Pode haver mudanças comportamentais, mas não devemos assumir automaticamente que sejam ciúme.
A chegada de outro animal modifica muita coisa ao mesmo tempo:
rotina, espaço, cheiros, acesso às pessoas, descanso, alimentação, brinquedos e previsibilidade.
Uma introdução cuidadosa reduz conflitos.
Cada animal deve continuar tendo acesso seguro a recursos importantes, incluindo:
- local de descanso;
- alimentação;
- água;
- brinquedos apropriados;
- interação individual;
- possibilidade de afastar-se.
O objetivo não é obrigar os animais a dividir tudo.
É criar condições para que a convivência não transforme recursos importantes em motivo constante de competição.
Devemos dar exatamente a mesma atenção para todos?
Não necessariamente.
Animais não fazem uma contabilidade humana de minutos de carinho.
O mais importante é que cada indivíduo tenha suas necessidades atendidas e consiga prever que continuará tendo acesso a recursos e interações importantes.
Alguns cães desejam muito contato.
Outros preferem distância.
Alguns brincam juntos.
Outros convivem perfeitamente bem sem compartilhar atividades.
Equidade comportamental não significa tratar todos de maneira idêntica.
Significa reconhecer indivíduos diferentes dentro da mesma casa.
Mito ou verdade?
| Afirmação | O que sabemos |
|---|---|
| “Cães não sentem ciúmes porque essa emoção é exclusivamente humana.” | Não podemos afirmar isso. Existem evidências experimentais de comportamentos compatíveis com uma forma básica de ciúme. |
| “Se meu cachorro entra no meio, é prova de ciúme.” | Não. O comportamento também pode resultar de busca por atenção, aprendizagem ou competição por recursos. |
| “O cachorro precisa ver o tutor fazendo carinho no rival para reagir.” | Provavelmente não. Um experimento de 2021 encontrou respostas mesmo quando a interação estava escondida. |
| “Cachorro ciumento é cachorro que ama muito.” | Simplificação perigosa. Comportamentos possessivos ou agressivos não devem ser romantizados. |
| “A ciência já provou que cães sentem exatamente o mesmo ciúme que humanos.” | Não. Essa conclusão vai além das evidências disponíveis. |
O que observar no seu cachorro
Em vez de perguntar apenas:
“Ele está com ciúmes?”
observe a sequência completa.
O que aconteceu imediatamente antes?
Quem estava presente?
Qual recurso estava envolvido?
O cachorro tentou aproximar-se do tutor ou afastar o outro animal?
Houve rigidez corporal?
Rosnado?
Vocalização?
O comportamento ocorre apenas com outros cães?
Também acontece quando o tutor dá atenção a pessoas?
O que acontece depois que o cão interfere?
Ele recebe carinho?
O rival se afasta?
Essas perguntas são muito mais úteis do que simplesmente atribuir uma emoção.
Elas transformam uma impressão em observação comportamental.
O que a ciência ainda não sabe
Apesar dos experimentos existentes, ainda há perguntas fundamentais sem resposta.
Não sabemos exatamente qual é a experiência subjetiva do cachorro durante esses episódios.
Não sabemos até que ponto diferentes cães experimentam o fenômeno da mesma maneira.
Também precisamos de mais pesquisas envolvendo interações sociais naturais e rivais reais, uma limitação explicitamente levantada pela literatura.
Raça, história de vida, socialização, vínculo com o tutor, personalidade e experiências anteriores também podem influenciar as respostas.
Portanto, a frase cientificamente responsável continua sendo:
Cães demonstram comportamentos compatíveis com ciúme, mas ainda estamos descobrindo o que essa emoção representa na mente canina.
Muito além do “ciúme”
Talvez a descoberta mais interessante dessa história não seja descobrir se podemos finalmente colocar a palavra ciúme no vocabulário emocional dos cães.
É perceber o quanto eles acompanham nossas relações sociais.
Eles observam para quem direcionamos atenção.
Respondem diferentemente a possíveis competidores.
Interferem em determinadas interações.
E, em condições experimentais, podem reagir até mesmo a uma interação social que já não conseguem enxergar.
Ainda precisamos ter cuidado para não transformar cães em pequenos seres humanos cobertos de pelos.
Mas o extremo oposto também está ficando difícil de sustentar.
A vida emocional e social dos cães parece ser consideravelmente mais sofisticada do que imaginávamos algumas décadas atrás.
E talvez aquela cena tão conhecida — você acariciando outro cachorro enquanto o seu encontra uma maneira de entrar exatamente no meio — seja mais do que uma situação engraçada.
Pode ser uma pequena janela para compreender como uma espécie que vive conosco há milhares de anos percebe, acompanha e protege suas relações sociais.
Referências científicas
Harris CR, Prouvost C. (2014). Jealousy in Dogs. PLOS ONE, 9(7): e94597. DOI: 10.1371/journal.pone.0094597.
Prato-Previde E, Nicotra V, Pelosi A, Valsecchi P. (2018). Pet dogs’ behavior when the owner and an unfamiliar person attend to a faux rival. PLOS ONE, 13(4): e0194577. DOI: 10.1371/journal.pone.0194577.
Bastos APM, Neilands PD, Hassall RS, Lim BC, Taylor AH. (2021). Dogs Mentally Represent Jealousy-Inducing Social Interactions. Psychological Science, 32(5), 646–654. DOI: 10.1177/0956797620979149.
Scientific Reports (2025). Companion dogs show signs of jealous behaviour toward non-living agents. DOI: 10.1038/s41598-025-86821-2.



